Estilo

Moda sem rótulo

A tendência da desconstrução de gênero nas roupas

Por: Hana Lucatelli

Poderia aqui apenas abordar os desfiles das últimas semanas de moda ou as recentes campanhas de grandes marcas, que trazem a estética unissex como uma novidade para a próxima temporada, mas sinto que essa é uma boa oportunidade para ir um pouco além, dentro do conceito de moda e tendência. Ouvimos em algum momento que a moda é algo sem utilidade, superficial ou fútil, mas, se olharmos por baixo dessa camada de revistas e etiquetas, a moda pode nos ensinar muito, nos ajudar a entender um pouco mais sobre nós mesmos como coletivo e como sociedade. E o mais interessante, a moda pode nos ajudar a enxergar o que está por vir em um futuro próximo como tendência comportamental. Para isso só precisamos entender o ciclo simples que a moda percorre.

 

Moda Unissex-Plurissex beira a foto reprodução

Exceções existem, mas normalmente o que acontece é que os jovens — questionadores por natureza — não se encaixam no padrão social já existente, pois pensam de uma forma fora da curva, gostam do diferente, procuram sempre o novo, querem cada vez mais liberdade e tentam ser o que ninguém foi. Essa forma de ser e pensar reflete nas roupas, queiram eles ou não, se importem eles com roupa ou não. Naturalmente um grupo tão livre e tão inovador gera a admiração e o interesse de pessoas que estão sempre em busca de algo novo e que automaticamente se inspiram naquele modo de agir e de vestir, quase como: “porque eu não pensava assim antes?”. Logo, as revistas e as grandes marcas, que são compostas pelos “antenados” ou “caçadores de tendências” e tem um radar preciso para toda novidade, para os comportamentos ainda não explorados vindos de um modo pioneiro de pensar, descobrem novas tendências.

 

Cleo Pires usando conjunto sem gênero

Com o mundo globalizado, uma vez que uma tendência é impressa pelos veículos formadores de opinião ou, no caso das mídias sociais, são aderidas pelos formadores de opiniões, ela vira uma grande tendência social e irá refletir não só no modo como as pessoas se vestem, mas também em como pensam e agem. Assim, olhar bem e com calma para a moda pode ser uma forma de se questionar sobre padrões impostos, sobre a nossa cultura, nossos hábitos, e a entender o que está por vir em um sentido bem amplo. Com essa breve explicação, podemos voltar ao tema inicial.

Nos últimos tempos, em qualquer grande veículo impresso ou digital de moda, é certo nos depararmos com campanhas onde não se tem claro se as peças são masculinas ou femininas, onde as modelagens e as cores são neutras e o tamanho pouco importa. Começou com as peças estilo boyfriend, com a alfaiataria, depois com os homens com calças skinny, com camisetas longas que mais parecem vestidos, e, finalmente, os mais ousados com saia. Todos esses casos indicam que as mulheres estavam usando roupas do guarda-roupa masculino ou que os homens usavam do feminino, mas agora o que se vê são roupas híbridas que foram criadas para um novo guarda-roupa: o unissex. E isso acontece porque a indústria percebeu que já há algum tempo as pessoas mais contemporâneas e livres de julgamento, por não terem “gênero” como um fator seletivo e por defenderem uma forma igualitária de tratamento e de não diferenciação, naturalmente buscam peças e se vestem de uma forma sem gênero definido.

 

Zara Genderless: Reprodução

Se pensarmos bem, isso reflete movimentos novos na política, na mídia, na arte e em todas as áreas que demonstram vontade e necessidade crescentes de enxergar pessoas como pessoas e não como gêneros. Essa tendência dentro da moda pode nos fazer pensar ainda mais a questão da não divisão entre masculino e feminino e talvez nos ajude a ter mais liberdade para nos expressarmos de todas as formas, incluindo as roupas, sem nos prendermos ao que foi designado e imposto para o nosso gênero. Se alguém está achando que isso é só um modismo, ou uma tendência maluca que não vai vingar, que tal pensar que um dia já foi anormal e maluco mulheres usarem calça?

Maculino sem Gênero: Reprodução
Maculino sem Gênero: Reprodução

A sociedade pensa, repensa, se questiona e evolui, causando estranheza como em toda mudança. Mas a moda serve para aproximar a sociedade de forma mais leve, e quase inconsciente, à essas mudanças. Essa tendência não indica o fim das sessões de departamento “masculino” e “feminino”, mas indica, como tendência cultural, que o futuro será mais homogêneo e menos segregado por gêneros.

 

Cleo veste camisa verde de manga comprida

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