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A liberdade do corpo

A liberdade do corpo

Seios, censura e #freethenipples: o ensaio-manifesto de Rebecca Gobbi.

Em 15 de março de 2017, século 21, Rebecca Gobbi publicou em sua conta no Instagram uma foto de seu mais recente trabalho até então: um desfile na semana de moda de São Paulo. O registro, que mostrava tanto ela quanto o modelo Filipe Hilmann com o peitoral à mostra enquanto caminhavam pela passarela foi deletada antes mesmo de completar 24 horas online. A razão, por mais que já imaginamos, foi comprovada quando, no dia seguinte, a modelo agenciada pela Way Models publicou a foto mais uma vez, agora com apenas seus seios cobertos pela hashtag #FreetheNipples: os seios femininos não podem ser mostrados em público.

Ainda que seu colega de profissão, logo atrás, permanecesse sem camisa em ambas as situações, os seios cobertos de Rebecca foram suficientes para manter a foto online ainda hoje, sem restrições. Mas não foi esse o único entrave qual Rebecca se encontrou naquela semana. No dia anterior, quando ocorreu o desfile em questão, a modelo recebeu diversos comentários negativos na internet; não só por desfilar de topless, mas por fazê-lo tendo seios pequenos.

Dois modelos, um homem e uma mulher, desfilando sem blusa, vestindo apenas calças. | A liberdade do corpo
Foto: AFP

“O fato de eu ter os seios pequenos, não me torna menos mulher ou menos desejada”, desabafou Rebecca em seu perfil no Facebook. O desfile trazia ambos os modelos com a mesma vestimenta, e sem camisa. A ideia era protestar a favor da igualdade entre os gêneros, mas o volume de comentários que ridicularizava o formato do corpo da modelo mostrou como esse debate ainda é pequeno em um país tão sexista.

“Ter peitos foi uma coisa dada a mim e aceita por mim querer continuar assim. Se você tem peitos grandes, ame-os. Se você os tem pequenos, ame-os. Amem seus corpos que foram dados a você. Não fique colocando os seus defeitos, de coisas que você não gosta em si próprio, no corpo dos outros. Se livrem desse ódio, desse rancor. Isso faz mal. O que eu amo não é o mesmo que você ama. Aceitem a diversidade. Isso é o que torna o mundo mais interessante. “
– Rebecca Gobbi

As polêmicas envolvendo a modelo vão de encontro ao movimento Free the Nipples, campanha que circula principalmente nas redes sociais em uma luta contra os veículos de comunicação que censuram os mamilos femininos. Ainda que obrigada a tampar seus mamilos para ter sua foto na rede social, foi com a palavra de ordem que ela o fez. Como resposta também a tudo isso, a modelo se juntou ao fotógrafo Hudson Rennan e à maquiadora Carol Prada num ensaio espontâneo: “Essas fotos vieram depois de toda essa situação. O perfil dela foi bloqueado, ela foi ridicularizada na rede. Então nos encontramos um dia. Estávamos no estúdio fotografando e nós resolvemos fazer umas fotos pra nós. A nossa intenção era fazer fotos legais pra gente”, contou Carol.

A liberdade do corpo: o ensaio-manifesto de Rebecca Gobbi
Foto: Hudson Rennan

O trabalho, porém, tomou corpo e o resultado são fotos que evidenciam as linhas de Rebecca com toda a sua força. “Bitch” estampado na face da modelo nos remete a todos os xingamentos que ela recebeu por simplesmente ser quem é. Não é essa a primeira situação em que uma mulher segura de seu corpo e vontades é diminuída. Outros cliques trazem a frase “See you in hell”; um destino igual a todos os que sofrem no julgamento da condenação conservadora-cristã. Condenação, porém, é o oposto do que buscava Hudson, responsável pelos cliques: “Mais do que uma fotografia, a gente queria expressar liberdade. Um tipo de ‘Meu corpo, minhas regras’ A ideia seria escrever no corpo da Rebecca pensamentos, respostas e opiniões do que ela e os outros poderiam pensar ao ver somente a imagem, sem palavras. No geral, queríamos arte, imagens fortes, sem julgamento”.

A liberdade do corpo: o ensaio-manifesto de Rebecca Gobbi
Foto: Hudson Rennan

Com o trabalho concluído, outro ponto importante foi encontrar um lugar que quisesse publicar o material com a visibilidade merecida. Com a censura nas redes sociais, não era aquele o lugar adequado. “Onde vamos publicar um peito de fora, com frases fortes? É muito difícil alguém comprar essa ideia. A gente se viu preso com um trabalho tão lindo”, contou Carol. Foi quando o Site Cleo surgiu como opção:

“A gente acha que o site da Cleo é tão forte quanto ela. Então se quiséssemos mostrar fotos que fizessem um barulho, que fosse no site Cleo. Porque eu penso que essas fotos tem a ver com ela, que é uma mulher de atitude, que faz o que pensa, que não liga para o que os outros vão falar, e que está vivendo e não deixa de ser a Cleo.”
– Carol Prada

O que ocorreu com Rebecca é apenas um exemplo do que ocorre a muitas mulheres. A degradação disfarçada sob opinião quanto ao corpo da mulher está presente não só na internet, como nas mídias em geral, nos espaços públicos e até dentro de casa nas conversas informais. São as piadas sobre as mulheres gordas, sobre aquelas que tem seios pequenos, a objetificação das que completam todos os requisitos do padrão de beleza brasileiro. São pensamentos que negam às mulheres o simples direito de serem donas de seu corpo. Sobre isso, Rebecca conclui: “Eu acredito que o corpo nu da mulher tem que parar de ser visto como algo sexualmente ofensivo ou ofensivo e sexual. Um assunto a ser muito discutido e ainda com muitos tabus a serem quebrados. Espero um dia chegarmos a igualdade social, racial, cultural e todas as outras.”

A liberdade do corpo: o ensaio-manifesto de Rebecca Gobbi
Foto: Hudson Rennan
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